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Correr para viver: corrida de rua é um dos tratamentos para obesidade

  • 31 de mar. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 28 de ago. de 2024

Reportagem | Redigida em 31 de março de 2024



Todos os dias, Fernando Pessoa, 45, viajava para o interior de Sergipe à trabalho. Chegava “morto” em casa, mas não recusava um convite para comer ou beber em qualquer barzinho. A mesma energia não existia, contudo, para se exercitar. A luta contra a balança não era recente: nunca se incomodou com o peso, mesmo passando a maior parte de sua vida estando um pouco acima, tinha o hábito de frequentar o famoso Bar do Pastel no centro de Aracaju (que, coincidentemente, é próximo a sua casa). Era um freguês tão fiel que podia comer até de graça se quisesse. Mas tinha a cultura de pedir três pastéis, uma coxinha e dois copos de suco. Mais do que frituras, confessou não conseguir deixar um chocolate parado no armário e preferir isso à cerveja. Foram esses hábitos que o fizeram atingir rapidamente os três dígitos na balança e colocar na cabeça que a solução seria uma mudança radical, a começar pela cirurgia bariátrica.

O pensamento de Fernando e sua relação com a alimentação e o exercício não diferem da realidade de muitas pessoas que sequer sabem que estão em obesidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, é uma doença marcada pelo excesso de gordura corporal geral e pode estar associada a problemas tais como diabetes, distúrbios do sono e alterações de humor. Pode ser causada por diversos fatores, como: má alimentação, genética, hormônios e sedentarismo. Além disso, um dos métodos para identificá-la é através do cálculo do índice de massa corporal (IMC), sendo igual ou maior que 30, é obesidade. O Atlas Mundial da Obesidade 2024, lançado ano a ano pela Federação Mundial da Obesidade, estima que, até 2035, 3,3 bilhões de adultos serão afetados pelo IMC elevado, 1,1 bilhões a mais que em 2020 e com uma proporção global de 54% de casos de sobrepeso ou obesidade.


Como identificar os casos?

Atente-se aos possíveis sintomas: falta de ar e roncos, dores no corpo, dificuldades para fazer esforços, manchas escuras na pele e ansiedade. Em caso de suspeita, consulte um profissional. Porém, é possível medir individualmente o IMC, dividindo o peso pela altura ao quadrado. Por exemplo, uma pessoa com 70 kg e 1,70 cm calcula 70 x (1,70 x 1,70), resultando no IMC 24,2. Ainda de acordo com o Atlas, o resultado desse cálculo determina o nível corporal do paciente: entre 18 a 24,9 peso normal; 25 a 29,9 sobrepeso; 30 a 34,9 obesidade grau 1; 35 a 39,9 grau 2; 40 ou mais, grau 3. Nesse ponto, é preciso decidir o próximo passo.


Quais caminhos seguir?

Dentre as opções, Fernando relata o que fez: “Relaxei, engordei, emagreci e engordei de novo. Fui à nutricionista, mas não seguia nada que ela passava. Não tinha mais ânimo para perder peso. Fui ao médico e estava decidido a fazer a bariátrica. Mas na noite antes de marcar, sonhei que morria na mesa de cirurgia”, lembra. Foi a virada de chave para mudar o rumo e encarar o exercício como “necessidade de vida”. 

O médico do esporte, Danillo Pereira, explica como a medicina enxerga o exercício físico: “ É um remédio. Toda medicação tem frequência, dose e tempo de tratamento. E a ideia é que o exercício, diferente dos comprimidos, você não compra, mas sim executa a medicação”. E ainda fala sobre o receio que as pessoas têm em iniciar uma atividade, principalmente em casos que a doença já está instalada: “[Temem] que cause alguma lesão osteomuscular. Mas o sedentarismo também causa lesão. É um tipo de lesão indolor e temos o costume de pensar que se não dói, não tem problema. Mas, pressão alta, diabetes, obesidade, lesionam o corpo.”, diz. Propor o início de um exercício sempre será superior, pois trata e fortalece o praticante como um todo.


Corrida como alternativa

A corrida de rua surge como um exercício eficaz em todas as situações e alguns especialistas comentaram sobre. O professor de educação física, Erlan Dantas, responde: “É o esporte mais democrático pelo custo-benefício: para iniciar, só precisa de um tênis e uma roupa. Você usa o próprio peso, trabalha o corpo de forma geral, consegue correr em qualquer lugar e pode estar sozinho ou acompanhado. No caso de pessoas com sobrepeso ou obesidade, o aconselhado é respeitar seu ritmo e, se necessário, fazer caminhadas, para criar condicionamento físico”.

Além disso, um estudo feito pela revista estadunidense PLOS Genetics com 18.424 participantes revelou que, dentre 18 esportes, a corrida se mostrou certeira na estabilização da massa corporal e tratamento da obesidade, auxiliando até casos de predisposição genética. Por isso, o esporte merece a fama que vem ganhando. Uma pesquisa do Tickets Sport, maior site brasileiro de eventos esportivos, apresentou um salto de 20% nas realizações de eventos de corrida: em 2022, foram 1.181; já em 2023, foram 1.421. Um exemplo é a Corrida Cidade de Aracaju, a mais procurada no Norte e Nordeste, que precisou abrir um lote extra de mil vagas, somando 9 mil inscritos na edição de 2024. Houve um acréscimo de 3 mil vagas em comparação à corrida de 2023, mostrando a alta procura dos atletas.

Há quem diga que ainda falta muito: “A gente tem menos de 10% da população que é fisicamente ativa. Precisa aumentar, de fato. Tanto os praticantes, como os mecanismos que facilitem esse processo. Segurança pública, iluminação e arborização são exemplos” disse Danillo Pereira.


Papel das assessorias esportivas

Antes das 5 horas da manhã, três dias na semana, a Orla de Aracaju já está a todo vapor. Com o céu ainda escuro, é possível ver o colorido das várias camisas, cada uma representando uma equipe. Vários tipos de corpos e idades, diferentes ritmos, reunidos por um objetivo em comum: correr. Nele, diversas motivações explicam a determinação de cada um: seja saúde física ou mental, lazer ou obrigação, alguns até mesmo só vão pela arte de socializar.

Fernando conta sua preferência: “Não sou muito fã de correr sozinho. Um motiva o outro, você pode estar cansado, mas alguém te ajuda”. O médico Danillo também contou que, quando entrou na corrida, precisou procurar uma assessoria: “Não é porque eu tenho uma base de um conhecimento teórico que eu vou fazer sozinho, além de que a prescrição para a corrida é o instrutor físico que faz. Então, procurei um”, explica. 

Tanto Danillo como Fernando fazem parte da assessoria de Adriano Carvalho, um clube de corrida de Aracaju, que conta com dois profissionais: Adriano e Marcos Lima. Apesar do grupo ter só dois anos, Adriano conta que, em média, 200 alunos já passaram por ele. Marcos relatou que, quando uma prova se aproxima, muitos iniciantes querem participar, mesmo sem acompanhamento. Por isso, cita o diferencial do preparo antecipado com um grupo: “Você vai ter um planejamento individualizado, vai fazer a prova e continuar correndo. Não tem o risco de precisar parar por meses por uma lesão, o que acontece muito quando alguém quer começar a treinar pesado e sozinho”. Afirmou ainda que a chance de atingir sua meta e de otimizar o resultado aumenta pelo acolhimento nos treinos conjuntos.

Fato é que, sozinho ou não, o conselho comum aos especialistas é: se exercício é remédio, sua ausência sinaliza doença. Logo, faça a partir de hoje.


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