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Por trás do aratu: marisqueiras

  • 27 de ago. de 2024
  • 2 min de leitura

Editorial | Redigido em 27 de agosto de 2024



O famoso aratu de Indiaroba motiva turistas a desbravarem o interior sergipano. Especialmente a empadinha de aratu da vila Terra Caída, que é um patrimônio imaterial do estado por meio do Projeto de Lei 277/2021, por ser base da tradição e do pertencimento da comunidade. Porém, por trás do movimento econômico e cultural que o aratu carrega, processos antecedem a culinária local: as histórias dos grupos que fazem do manguezal seu escritório.

É difícil encontrar dados e pesquisas concretas sobre números, mas com certeza matérias e cartas sobre reivindicações de uma maioria desses grupos: as marisqueiras. Espalhadas em Terra Caída, em Sergipe e no Brasil, essas mulheres conhecem o aratu de cabo a rabo e dele vem seu sustento desde o início de suas vidas, por terem o mangue em casa através das tias, mães e avós. É no cenário dos manguezais que o afeto é criado pelas colegas de profissão, estas que são essenciais para suportar a jornada cansativa que é posta como ossos do ofício. A quem interessa essa negligência?

Em 2021, comunidades tradicionais de Sergipe, incluindo as marisqueiras, enviaram uma carta aberta à mídia, denunciando a situação de fome, causada pelo derramamento de petróleo nas águas do estado em 2019, seguido da pandemia, períodos esses que pararam os trabalhos no mangue, fecharam feiras e retiraram dos povos o que os sustenta, gerando insegurança alimentar geral. O pedido das autoridades foi que ficassem em casa e o auxílio beneficiou apenas quem possui o Registro Geral de Pesca, que não chega nem perto de abarcar a totalidade dos pescadores e marisqueiras que ficaram desamparados. Pedidos para o RGP atingir mais pessoas são negados desde 2012, então como ficar em casa? Sem aratu circulando, sem comida na mesa? Aparentemente, esses grupos são lembrados só quando o turismo está fluindo, quando fazem o dinheiro girar.

A luta não é recente. O Movimento das Marisqueiras de Sergipe une as rainhas do mangue - apelido que receberam após anos de história - há quase uma década. Em 2023, criaram um perfil no Instagram para divulgação das reivindicações e, junto ao PEAC, promovem oficinas sobre seus produtos, rotinas e expandem a urgência de políticas públicas. Sua última publicação, no Dia da Luta pela Saúde da Mulher, pede por saneamento básico, fiscalização para barrar desmatamento, poluição - logo, contaminação dos alimentos - e equipamentos de proteção para aguentar sol, picadas e cortes. O básico que não chega e as jornadas triplas de trabalho parecem cada vez mais impossíveis. Já passou da hora de lembrar que atrás do aratu, dentro do mangue, existe uma mulher, um pescador, uma família que pedem ao menos pelo mínimo. Como falar de tradição sem ver as mãos que a sustentam?


Foto de capa: reprodução/Instagram Marisqueiras Sergipe


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