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SÓ MAIS UMA PRAÇA

  • 22 de out. de 2024
  • 10 min de leitura

Em Aracaju, abandono da Praça Monteiro Lobato preocupa moradores, mas passa despercebido pelas autoridades

Reportagem especial



Não é incomum que praças sejam percebidas como meros lugares transitórios, que aparentam ter apenas a função de compor um bairro. Porém, o Estatuto da Cidade, lei que regula os bens coletivos sobre a propriedade urbana, afirma a importância desses espaços, especialmente para a garantia do direito ao lazer, cultura, esporte e bem-estar. Por isso, a pracinha da esquina deveria ser uma ferramenta de integração da população que oferecesse atividades, segurança e infraestrutura para o acesso pleno, mas os dados apontam que a expectativa não procede.

Não há estimativas exatas e atualizadas sobre a quantidade de praças no Brasil, o que já revela a forma como esses ambientes são colocados em segundo plano. Em Aracaju, a Prefeitura divulgou no ano de 2023 que a capital sergipana possui mais de 270 praças. Segundo o Censo de 2022, a cidade apresenta 182.163 km2 de extensão territorial, o que é um número razoavelmente bom de praças para sua dimensão, mas é necessário considerar a distribuição por km2, a manutenção regular e a qualidade desses espaços, assim sendo realmente utilizáveis, e não apenas números. Esses dados mais específicos não estão disponíveis nos canais de informação da Prefeitura e não foram encontrados no processo de pesquisa da reportagem. No entanto, é válido citar que Aracaju é a capital com o plano diretor mais atrasado do Brasil, instrumento básico para o planejamento e desenvolvimento urbano. O atual plano é de 2000 e é baseado em estudos da sociedade aracajuana de1995, em que haviam cerca de 423 mil habitantes. O Estatuto da Cidade rege que deve ser realizada revisão a cada década. No caso do plano de Aracaju, foi dado um prazo de cinco anos de adequação a partir de 2001, pois foi instituído antes da formulação do Estatuto. Mas, mesmo após 23 anos de sua promulgação, nenhuma alteração foi estabelecida.



Fonte: IBGE Atualmente, Aracaju tem uma estimativa de mais de 200 mil habitantes em comparação ao ano do plano diretor, escancarando o descaso com o povo e atraso da cidade

A Praça Monteiro Lobato, localizada no Bairro Inácio Barbosa, é um dos exemplos de que construir uma praça não é sinônimo de que ela é capaz de ser plenamente utilizada. Essa praça contém uma quadra poliesportiva, um campo, uma mangueira tombada em 2017, a Escola Estadual Monteiro Lobato e a Associação de Moradores do Conjunto Habitacional Inácio Barbosa (AMCHIB), além de um pequeno polo comercial.

Os moradores contam que, no passado, ela foi o coração da vizinhança. Sediou o Aniversário da Cidade, era utilizada diariamente pelos idosos que frequentavam o polo da Academia da Cidade realizado no mesmo espaço, além dos diversos grupos que marcavam presença no “babas” da quadra. Mas a retirada desses eventos, a deterioração do ambiente e a falta de respostas das autoridades transforma a praça em mais um lugar sem vida. A realidade agora são calçadas levantadas, campos sem grama, mesas sem bancos e buracos em todas as partes. A reportagem adota o pensamento de entender o que está presente na ausência, acompanhando diretamente o espaço e os relatos dos personagens sobre ele, com o objetivo de dar voz à demanda popular e enxergar as vidas envolvidas.



Os laços de uma trave


Se a campainha tocava às quatro da tarde de um dia comum, com certeza era um convite para ir à praça e 'bater um baba'. Quadra, campo e praça são quase indissociáveis, pois historicamente, eram os espaços onde a movimentação se concentrava, mostrando o quanto a prática esportiva unia a comunidade.

Matheus Maynart, 23, quando mais novo era um dos responsáveis por passar de casa em casa para chamar as crianças para jogar. Sempre morou no bairro e é apaixonado por futebol desde a infância. Relata que a quadra foi o começo do seu sonho em ser jogador profissional, mesmo diante da falta de estrutura que afetava os jogos. "Era a quadra que eu tinha perto de casa para jogar bola, independente da situação dela, era o que tínhamos no momento. Quando você é criança, você não pensa se vai se machucar ou não, só quer se divertir. Então, ela foi muito importante, aqui eu fui feliz com os meus amigos", conta enquanto olha para a quadra com nostalgia.

Através dos babas da quadra, Maynart criou laços com Matheus Dias, 20, Gabriel Marcionilo, 24, e Gabriel Ribeiro, 23, que se tornaram melhores amigos de vida. Com cinco anos, Dias se mudou para a rua de Maynart e logo começaram a jogar juntos. O menino que ainda era novo no bairro demorou a ir jogar na quadra, pois conta não ter amigos antes dele. Com os anos, passou a frequentar o local, assim conhecendo Ribeiro e Marcionilo, chamado pelos amigos de "Marcinho". Os quatro, apesar de também frequentarem o campo ao lado, sempre jogaram mais na quadra.


Foto: arquivo pessoal/Matheus Dias Da esquerda para a direita: Matheus Dias, Gabriel Ribeiro, Matheus Maynart e Gabriel Marcionilo

Mesmo que estivessem machucados, o grupo afirma serem assíduos nos babas da infância, não dando nem tempo para a ferida cicatrizar. Dias e Marcinho apontam que o chão da quadra não é nem ao menos finalizado, sendo formado por um tipo de brita, que só de pisar já machuca o pé. Jogar calçado nunca era uma opção, tanto pelo financeiro que não permitia comprar a melhor chuteira, como pelo estrago que o solo causava ao material.

Com a deterioração das telas e queda das traves, os meninos se viram obrigados a pararem de jogar no que antes era a extensão de suas casas. "Não compensa jogar em um lugar como esse", Dias reflete ao mencionar que, com a idade, começou a perceber que não valia a pena se machucar insistindo em jogar bola no espaço. "Eu acho que se tivesse uma quadra decente, com certeza viríamos mais vezes aqui", completa.



"A cidade é pequena, não tem um clube de grande expressão, o que dificulta o sonho de um menino em se tornar jogador de futebol", Maynart comenta ao lembrar que não tinha condição financeira suficiente para viajar e buscar profissionalização. Um dos fatores que motivou a morte de seu sonho foi a necessidade de entrar no mercado de trabalho, mas continua sendo um amante do esporte, jogando por diversão quando pode. "No meu imaginário, aos dezenove anos, eu estaria jogando no Real Madrid. Não aconteceu" relata em meio a risadas com Dias e Marcinho.

Nenhum dos meninos seguiu a carreira no futebol. Dias e Marcinho estagiam juntos e cursam, respectivamente, Administração e Engenharia Civil na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Já Maynart trabalha no ramo do comércio e possui a própria loja de artigos esportivos, além de cursar programação. Eles afirmam ser a forma que encontraram de trilhar seus caminhos, mas ao relatarem, é claro a saudade que sentem em jogar na quadra e a vontade de fazer algo pelo lugar.



Essa praça tem nome


Ao pesquisar a localização da praça no Google Maps, o nome que consta na praça é Monteiro Lobato, por causa do colégio que está presente nela. Porém, durante as pesquisas da reportagem, descobriu-se que existe outro nome que até moradores não tem conhecimento sobre.



Em 2022, foi aprovado um projeto de lei que altera o nome da praça para “Praça Artista Plástico José Fernandes”, como forma de homenagem à atuação do lagartense que morou um bom tempo no Inácio Barbosa e é descrito por amigos e familiares como uma figura extremamente engajada no bairro.

Cyntia Maria, viúva de Zé, relata que foi essa participação que o fez virar nome de praça. Josefa Nascimento, amiga e dona de restaurante da região, reflete sobre a falta que ele deixou ao bairro. “Se hoje Zé estivesse aqui, essa quadra não estaria do jeito que está”, aponta.

Fernandes espalhou obras pelo conjunto, mas seu papel foi além disso, atuando também no esporte. Matheus Maynart foi um dos meninos incentivados por ele. “Eu tenho uma eterna gratidão a ele, foi um cara que acreditou muito. Por onde passava, falava de mim”, relembra com carinho.

O feito da troca de nome não foi tão reconhecido, tendo em vista que a identificação ainda é Monteiro Lobato, mas não tira a importância da história que existe por trás e revela um pedido urgente de valorização da cultura local.



Eu tenho medo de cair


Foto: Gabrielle Lima Nivaldo dos Santos e Josefina dos Santos pararam de caminhar no bairro por falta de acessibilidade


“Eu tenho medo de cair já nessa idade e me machucar. Nem levo meu marido. Nem eu vou, nem ele vai. Infelizmente aqui não está dando para fazer nem caminhada”, lamenta Josefina dos Santos, 75, conhecida como “Pombinha” entre os amigos. Seu esposo, Nivaldo dos Santos, não enxerga e as ruas esburacadas impossibilitam que ele consiga sair de casa em segurança. O casal mora no Inácio Barbosa há 24 anos e são apaixonados pelo bairro, mas admitem com tristeza que ele foi esquecido. “Daqui eu só saio quando morrer, eu amo o Inácio Barbosa, mas infelizmente a gente percebe que está muito abandonado. Desde que eu cheguei aqui, os prefeitos não estão preocupados com nada do Inácio”, aponta Josefina.



O problema do calçamento é o fato de ele ser antigo e as árvores estarem mal distribuídas em alguns locais, o que faz as raízes se expandirem e quebrarem as calçadas. As reclamações são muitas, mas nada foi resolvido desde o momento da publicação desta reportagem. Josefina denuncia ainda que ao invés de asfaltar o conjunto todo, esse serviço foi feito apenas nas ruas principais e lamenta a forma como os órgãos veem o bairro. Segundo ela, são feitas piadas sobre a população, sendo chamados de “velhos ricos metidos à besta”, o que revolta toda a comunidade que preza por respostas.

Josefina fez parte da primeira turma do polo da Academia da Cidade, que acontecia na praça, e frequentou até a sua retirada. Apesar da grande demanda de idosos que precisavam desse projeto e não tinham condições de pagar uma academia, até hoje não foram dadas respostas claras sobre o motivo da saída do polo. De acordo com a Prefeitura de Aracaju, existem 16 polos ainda em funcionamento na capital.




Foto: arquivo pessoal/Josefina Pombinha e amigas em campanha da Academia na quadra da praça

Josefina sente falta dos tempos da Academia, em que ela também teve a oportunidade de fazer amigos e participar de grupos que existem até os dias de hoje. “A Academia era importante porque nós que já somos de idade não ficávamos paradas em casa, ociosas, sem fazer exercício”, reforça. Entre sete e oito da manhã, todos os dias, Josefina e sua turma estavam na praça. E se chovesse, os equipamentos eram levados para a associação. Ela conta também que a relação entre os colegas ultrapassava o esporte, fazendo confraternizações em todas as datas comemorativas e movimentando a praça, cenário distante da realidade atual.



Josefina completa dizendo que a quadra está em condições de uso e que a Academia não é realizada porque não é de interesse dos responsáveis. Mas que o apelo maior seria pela urgência de troca do calçamento do conjunto por questões de segurança e acessibilidade, assim podendo sair para se exercitar com seu Nivaldo sem medo.

Uma esperança



A indignação em ver a vida da praça sendo perdida levou Gabriel Marcionilo e Matheus Dias a começarem um projeto de reforma dos espaços de lazer e esporte ali presentes. Sob o Sol de dez da manhã de um domingo, as medidas foram tiradas e as ideias foram colocadas no papel. Os meninos, que jogavam desde a infância no lugar, consideram a necessidade para cada problema percebido e Marcionilo, que faz engenharia civil na UFS, aponta que algumas das metas são: expandir a quadra para evitar acidentes, retirada ou afastamento do poste que seria a tabela de basquete, trocar as telas, colocar iluminação no campo e trocar o alambrado por causa do seu desnível.

Matheus Dias, que trabalha na área de atos e contratos, afirma que apesar de qualquer morador poder fazer o projeto, é necessário que haja a apresentação deste à prefeitura por meio da associação de moradores, vendo ainda a mobilização das pessoas como uma fonte alternativa de conseguir verba. "Se só fizermos o projeto e formos à prefeitura, entraremos em uma lista de prioridades que demora muito. Então, se tiver interesse da própria população em ajudar financeiramente, subiremos algumas etapas", completa.

Sofia Dellaguardia, 20, é estudante de arquitetura e urbanismo e reforça o princípio da demanda popular frente à negligência dos órgãos, visando a importância da movimentação da população para recuperar a vida da praça.




O que diz a associação

A Associação de Moradores do Conjunto Habitacional Inácio Barbosa (AMCHIB) foi fundada em 1973 e não possui fins lucrativos, sendo voltada a atender as demandas do povo.

A reportagem conversou com Armando Pereira, atual presidente da AMCHIB, e Valtercio Menezes, atual tesoureiro, para saber o posicionamento da organização quanto às reclamações da população.



As denúncias e ofícios são diversos. Armando, que está no cargo de presidente desde 2019, afirma fazer solicitações todos os anos, tanto da recuperação da praça, como da troca de calçamento do conjunto.

"Certa vez, solicitei que pintassem as lombadas e asfaltassem o bairro, mas a EMURB veio e trocou as placas de identificação da Av. Cecília Meireles. Eu agradeci, mas não pedi isso e até hoje não foi feito. Aqui, o que você pede não é atendido", relembra. Ele acredita que um dos motivos para o esquecimento do bairro envolva questões políticas e por isso nada é feito. "Tudo precisa de orçamento. Uma reestruturação não envolve pouco dinheiro e não existe a boa vontade dos órgãos nem ao menos de fazer um projeto", Armando e Valtercio concordam.

Descrente em promessas de melhorias, o tesoureiro cita as reformas realizadas nas praças do Jardim Esperança, conjunto ao lado, e acredita ter um motivo por trás. "O Jardim Esperança rende votos, tem um polo comercial e tudo isso conta para o cofre público, o retorno é muito maior. Hoje, o Inácio Barbosa se tornou um asilo", lamenta, afirmando não ser um cenário interessante para ser investido em ano de eleições municipais.


Além da falta de resposta por parte dos órgãos, a associação também acredita que boa parte da população não se mobiliza. Ao mencionar sobre o projeto de reforma planejado por Dias e Marcinho, Armando e Valtercio evidenciaram a grande contribuição pela iniciativa e querem buscar a execução dele, mas não acreditam que os moradores se engajariam para financiar coletivamente, pois não existem atividades atrativas, mas muitos transferem a responsabilidade exclusivamente para a AMCHIB, formando um ciclo de conformismo com ao cenário atual. "A função da associação é muito mais social do que prática", explica o tesoureiro.

Valtercio comenta sobre a dificuldade em manter a associação, pois existem projetos, mas poucos recursos para realizá-los. Como não possui fins lucrativos, não produz renda e depende dos associados, porém a participação é baixa comparada a quantidade de casas. O presidente também aponta uma fraqueza das diretrizes do estatuto da associação, que é o fato de apenas moradores com casa fixa poderem ser associados, impedindo quem tem aluguel de participar efetivamente, o que também reduz as expectativas de envolvidos da comunidade.

Fonte: autoria própria e dados da AMCHIB Proporção entre casas do conjunto e associados

"Não existe associação sem sócios, é um princípio básico. O que a gente mais quer é participação e compreensão de que não é uma luta de uma pessoa, mas da comunidade como um todo" é o apontamento que Valtercio deixa à população. Para não deixar que o local se transforme em "só mais uma praça", o pedido feito por ele e Armando é que as pessoas primeiramente participem dando ideias ou mesmo para cobrar as autoridades. "A gente quer evolução, não involução", completa.


Autoridades

A reportagem contatou a Empresa Municipal de Obras e Urbanização (EMURB), através de funcionários e canais de comunicação, com o objetivo de buscar respostas para os questionamentos da comunidade. Porém, até a publicação da matéria, não obteve retorno. Em caso de resposta, a reportagem permanece aberta à atualizações com esclarecimentos.

 
 
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